A Burning Lanscape
Imago Garage
Rua do Vale de Santo António 50A, 1170-381 Lisboa
16 . 10 . 2026 → 14 . 11 . 2026
4ª feira - sábado → 14h30 – 18h30
Artista
Gonçalo Fonseca
Gonçalo Fonseca (1993) é um fotógrafo documental baseado em Lisboa, Portugal, especializado em projetos de longo prazo e carácter íntimo. Contribui com regularidade para o Washington Post, New York Times, Der Spiegel e o The Guardian, documentando questões e eventos de relevo no seu país de origem. Gonçalo recebeu inúmeras menções, incluindo o prémio Leica Oskar Barnack (Newcomer), e foi finalista do Prémio Community Awareness no POY e do prémio Hellerau Portrait. O seu trabalho já foi exposto nos principais museus e galerias em Portugal, Reino Unido, Alemanha, China, Coreia do Sul, Austrália e Emirados Árabes Unidos.
goncalofonseca.net
Com 3% do seu território queimado e o maior incêndio florestal da sua história, Portugal enfrentou mais uma época de fogos devastadora. Apesar do seu tamanho pequeno, há duas décadas que continua a registar a maior área ardida da Europa. Portugal tem uma das maiores áreas de eucalipto do mundo e é também um dos principais exportadores europeus de produtos de papel. Campos contínuos de eucalipto em monocultura são uma imagem comum. O despovoamento do interior deixou grandes extensões de terreno sem gestão, onde espécies invasoras e pirófitas, ou seja que estão adaptadas a regimes de fogo, dominam a paisagem.Segundo um relatório da indústria de pasta de papel de 2009, cerca de 80% do eucaliptal em Portugal é mal gerido ou está completamente abandonado. O mesmo relatório previa que, em média, um em cada quatro anos traria perdas significativas devido a incêndios florestais.
Uma Paisagem em Chamas é um trabalho em curso que procura ir além do ciclo mediático e explorar possíveis soluções para a crise dos incêndios em Portugal. O projeto analisa porque é que o país arde tão frequentemente e documenta os esforços que estão a ser feitos para alterar essa realidade. O objetivo é mostrar como comunidades e instituições estão a combinar tecnologia, restauro dos ecosistemas, conhecimento tradicional do uso do fogo e gestão do território em larga escala para que o país possa renascer das cinzas e construir um futuro mais resiliente.
O incêndio mais recente, do Piodão em Arganil em agosto de 2025, foi o maior alguma vez registado no país, com 66 mil hectares ardidos. A minha família materna é originária desta zona, da Serra do Açor, região de Coimbra, um lugar marcado por incêndios recorrentes. Conheço bem o cheiro das cinzas e a aflição de ter o indêndio à porta. Em 2017 a nossa casa escapou, mas perdemos o nosso quintal e pomar, o ano em que os fogos devastaram a região e causaram 114 mortes. Muitas famílias perderam tudo. À entrada de Vila Pouca da Beira, em Oliveira do Hospital, fotografei um barracão agrícola perto do cemitério. Dois dias depois da passagem das chamas, ainda ardia. O dono estava ao lado, a chorar. “Graças a Deus, desta vez não perdemos tudo”, disse-me. “Em 2017, perdi dois sobrinhos. Estão ali sepultados atrás.” Todos os anos, o espéctaculo repete-se ao vivo em todas as televisões do país. Os media cobrem a tragédia enquanto dura, mas rapidamente partem e só regressam aos territórios nos anos seguintes.
Quando as brasas finalmente se apagam, começa uma tarefa imensa. Com as primeiras chuvas, toneladas de terra e cinza são arrastadas para os rios, ameaçando a fauna e contaminando a água que abastece vilas e cidades. Equipas de trabalhadores passam longas horas a limpar a paisagem e a construir barreiras de retenção de cinzas antes que a época das chuvas começe. Outras equipas semeiam ervas autóctones de crescimento rápido , muitas vezes com recurso a drones, para estabilizar o solo e preparar o terreno para a reflorestação. Projetos inovadores e de grande escala estão agora a ser implementados para recuperar vastas áreas degradadas por incêndios sucessivos e por espécies invasoras. Em colaboração com as populações locais, equipas usam maquinaria pesada para preparar o terreno e plantar milhares de jovens árvores, redefinindo o conceito de floresta industrial ao juntar espécies produtivas, como o pinheiro-bravo, com espécies nativas escolhidas por motivos de conservação. Com um horizonte de 80 anos e desenvolvidos em terrenos comunitários, estes projetos permitem que as florestas amadureçam e se renovem ao longo de gerações.
“O fogo é necessário, faz parte do ecossistema, por isso temos de aprender a conviver com ele. Só temos de o saber usar”, explica André Mota, da Equipa de Proteção Civil da Comunidade Intermunicipal Viseu Dão Lafões. A sua equipa tem realizado queimadas controladas há vários anos em zonas repetidamente afetadas por incêndios nas últimas cinco décadas, recuperando uma prática antiga dos pastores de montanha.
Descobriram que estas queimadas prescritas podem abrandar significativamente a propagação dos incêndios de verão e, nalguns casos, travá-los por completo.
Muito foi feito para melhorar a vigilância, as estratégias de combate e a proteção dos ecossistemas desde a tragédia de 2017. Mas num clima cada vez mais quente, os incêndios tornam-se mais rápidos, mais intensos e mais imprevisíveis. O futuro destas paisagens dependerá de se a inovação, a tradição e a ação comunitária conseguirem manter-se um passo à frente das chamas.
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