Bone Foam
Imago Garage
Rua do Vale de Santo António 50A, 1170-381 Lisboa
16 . 10 . 2026 → 14 . 11 . 2026
4ª feira - sábado → 14h30 – 18h30
Artista
Maria Oliveira
Pode ser uma névoa matinal ocultando segredos do bosque, ou uma luz dourada que rompe da copa das árvores e se despenha entre o emaranhado dos ramos para poisar na clareira como se fora cenário, ou então, a boca aberta da terra para um abismo escondido nas profundezas; de outra vez era um círculo de fogo ou as chamas transparentes como luzes; de outra, a transfiguração do ramo do tojo envolvido na teia finíssima das aranhas; a asa em fuga da ninfa dos riachos, os cornos do boi sagrado rompendo do chão na fronteira do mundo conhecido onde tudo se confunde, a luz e as trevas; perante o mundo, a sacerdotisa da deusa da lua, guardiã dos vales, senhora da fertilidade e das águas primordiais, da morte, das entranhas do submundo; no dia da criação, o ovo luminoso das origens,a germinação, os olhos das pedras.
Por toda a parte, a fêmea multiplicada: segurando as abas da túnica de onde escorrem águas que fecunda o chão; a face oculta, os olhos fechados, o corpo, a cabeça metida no emaranhado dos frutos, da urgência das forças vitais que se expandem dos frutos ou das raízes, a mão que segura e oferece essas essências, que espalha os grãos que a luz acendeu; os actos consumados, a pedra no lugar da cabeça como memória mineral de um trabalho sem fim. No bosque, a grande pedra, o altar das oferendas à mãe-terra, os frutos, os animais degolados, as aves, as penas que se prenderam às ramagens, o véu das divindades das nascentes. No fim de mais um dia, a escuridão que desce sobre os montes até que de novo a deusa se transfigure tocada pela luz e tudo volte a ser fecundo, vida, morte, fulguração, chama ou sombra … até que tudo recomece.
Este é um mundo que habita as fotografias de Maria Oliveira. Tudo se nos apresenta como encantamentos, como figurações de um mundo primordial que nos habita, mas que persistimos em não ver, velozes que vamos na confusão dos dias que trituram passado e futuro na urgência constante feita de acontecimentos, ruído, passagens fugazes pela superfície, pelas coisas práticas onde não têm lugar a profundidade do firmamento, os espíritos das nascentes, o germinar silencioso das sementes, os deuses e os mitos que moram em tudo o que não compreendemos, naquilo que tememos, nas assombrações, no mistério da vida e da morte. Maria contou-me, uma vez, uma história acerca de uma mulher, uma tia que com ela vivia, que era como uma segunda mãe e lhe contava certas premonições acerca da morte de vizinhos ou amigos. Ainda criança, Maria encantava-se com essas histórias, com as imagens e relatos desses prodígios e adivinhações onde não havia nada de assustador – eram sempre imagens bonitas tiradas do ambiente mágico de um filme de Tarkovsky.
Continuando pelas próprias palavras de Maria: uma semana antes de morrer (a tia) disse-nos que lhe tinha acontecido um milagre ... coisa que custava um bocadinho a acreditar... mas ela muito feliz por isso. Tinha a ver com água ... e houve outros episódios relacionados com água que lhe aconteceram nesses dias (há uma música do Rodrigo Amarante que diz “como se morrer fosse desaguar”). No dia do velório, estava com a minha mãe na capela e entrou uma menina, com cerca de 8 anos, que ninguém conhecia. Foi diretamente ao caixão e disse-me uma série de coisas. Pediu que não deixasse a minha tia sozinha, que ela era muito bonita. E para não me preocupar porque ela estava bem, só um pouco fria. Que, em breve, seria só osso e espuma.
Depois disse que tinha de ir embora. Dei-lhe um abraço e ela disse-me que se chamava Maria.
Assim, tal qual. Osso e espuma são matérias que guardam as duas faces de tais assuntos que nos estão vedados: os ossos porque foram parte de corpos e vidas que teimam em persistir; a espuma por ser quase imaterial, quase nada. Maria, uma ou outra, é o Eterno Feminino de que fala Carl Jung, o arquétipo da Grande Mãe enquanto força primordial que se revela nos lugares férteis, nas profundezas do bosque, na luz e na escuridão, nos campos semeados, nas nascentes. A Grande Mãe é a autoridade mágica da fêmea; a sabedoria e a exaltação espiritual que transcendem a razão; qualquer instinto ou impulso útil; tudo o que é benigno, tudo o que acalenta e sustenta, que promove o crescimento e a fertilidade. Os lugares da transformação mágica e do renascimento, mas também o submundo e os seus habitantes, … onde o arquétipo da mãe se associa a tudo o que é secreto, oculto, escuro; o abismo, o mundo dos mortos, tudo o que devora, seduz e envenena, que é aterrorizante e inevitável como o destino.
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