Murmurare
Galeria de Santa Maria Maior
R. da Madalena 147, 1100-319 Lisboa
14 . 10 . 2026 → 07 . 11 . 2026
2ª feira - sábado → 15h00 – 20h00
Artista
Serge Ecker
Serge Ecker (nascido em 1982 em Esch-sur-Alzette, Luxemburgo) é um artista luxemburguês. Estudou imagem digital, animação 3D e efeitos visuais na Sup’Infograph - ESRA em Nice, França, entre 2002 e 2005. Depois de trabalhar em design gráfico e animação 3D, dedica-se à sua prática artística independente desde 2010. Vive e trabalha no Luxemburgo.
O seu trabalho explora a produção, a memória e a improvisação através da lente das novas tecnologias. Envolvendo-se com ambientes urbanos e as suas transformações, a sua prática questiona a representação da realidade através de processos de captura, reconstrução e tradução digital.
No Luxemburgo, apresentou várias exposições de destaque, incluindo murmurare no âmbito da EMOP Luxembourg na Galerie Nei Liicht em Dudelange (2025), Passages no Elektron – Bridderhaus, Esch-sur-Alzette (2024, individual), Zero Panorama no Centre des arts pluriels, Ettelbruck (2020), Grexit na Abadia de Neumünster (2016, cenografia), Inertia of the Real no Centre d’Art Dominique Lang, Dudelange (2015, individual) e White Inside #1 no Casino Luxembourg – Forum d’art contemporain (2013).
O seu trabalho foi apresentado internacionalmente em exposições como What I’d Come to See Had Already Gone (2025, com Aap Tepper e Birgit Püve) na Vabaduse Gallery, Tallinn; Transitus Immobilis no Kunstraum Niederoesterreich, Viena (2018, com Catherine Lorent); Breaking Invisible Structures no Technopolis, Atenas (2017, individual); e o Pavilhão do Luxemburgo na Bienal de Arquitetura de Veneza (2016).
Murmurare
Com Murmurare, Serge Ecker afasta-se da mera documentação de ruínas para se concentrar no que permanece. Enraizada em paisagens moldadas por histórias pós-industriais — entre o sul do Luxemburgo e a Estónia — a obra traça a persistência subtil da presença humana, agora quase espectral, à medida que a natureza recupera e remodela o seu território. Estas imagens falam simultaneamente de resiliência e de retraimento, do que desapareceu, mas continua a ressoar.
No seu âmago, o projeto desenrola-se ao redor da tensão entre ausência e presença. A fotografia não se limita a testemunhar a perda; afirma que algo existiu. Nesse sentido, a prática de Ecker insere-se numa linhagem artística e filosófica mais ampla, onde o visível se torna uma fronteira para aquilo que nos escapa.
Um eco discreto de Stalker, de Andreï Tarkovsky, atravessa o trabalho. Alguns dos locais fotografados na Estónia lembram cenários utilizados no filme, prolongando a sua atmosfera de indeterminação — zonas onde os limites da realidade parecem suspensos. Esta ressonância cinematográfica reforça a sensação de espaços marcados tanto pela memória como pela transformação.
Ao regressar à fotografia como meio principal, Murmurare marca um momento decisivo na trajetória do artista. Reflete uma interrogação contínua — sobre a legitimidade artística, mas também sobre um mundo marcado pela vulnerabilidade e pela transitoriedade. Esta inquietação subjacente confere à obra uma profundidade íntima e uma relevância coletiva.
A singularidade de Murmurare reside na sua dimensão reflexiva. Neste trabalho, a natureza funciona como um espelho — projetando uma paisagem interior moldada pela ausência, fragilidade e dúvida, mas também pela ironia e pela distância crítica. Embora enraizada na experiência pessoal, a obra expande-se para além dela, dialogando com as ansiedades partilhadas do nosso tempo.
Longe de qualquer posição apocalíptica ou didática, Murmurare propõe antes uma forma silenciosa de reconciliação: entre passado e presente, entre o que permanece e o que se desvanece. Sugere um equilíbrio delicado — uma forma atenta, quase meditativa, de habitar um mundo que é, por natureza, instável.
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